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Por que o conceito de “homem de verdade” da direita ‘neoconservadora’ não é funcional nos dias atuais? | by Igor C.R.H. | Jan, 2022

Igor C.R.H.

Não é difícil ver vários perfis nas redes sociais, homens e mulheres, muitos tradicionalistas, direitistas neoconservadores (esses com forte apoio para com os EUA, Israel, etc), entre alguns outros grupos, falando sobre o ser “homem de verdade” no século 21.
Mas vou compartilhar algumas visões minhas sobre esse conceito, a razão pela qual eu não confio na eficiência do conceito nos dias atuais, e também falarei das minhas impressões sobre alguns pontos da masculinidade. Tentarei ser o mais imparcial possível.

Muitos desses perfis tentam introduzir, a força, de que os rapazes tem que tentar de todas as maneiras se encaixar no conceito do “homem de verdade”, quase sempre tendo como alicerce, a sociedade de 30, 40, 50 anos atrás, em que os parâmetros socioeconômicos, psicológicos e de sociabilidade, eram completamente diferentes dos atuais.
Desse modo, tentam impor de maneira forçada, uma masculinidade pautada numa postura “viril”, “durona”, em que supostamente ele teria de exercer inúmeras funções em prol de outros, mesmo que ele tenha que se virar contra o que ele está sentindo num determinado momento. A questão é que há alguns problemas com isso.
Essa imposição não é trabalhada ao longo do tempo, e sim drasticamente introduzida a força, sem que a pessoa receba qualquer tipo apoio para chegar àquele patamar. Portanto, ela ignora todas as variáveis que cercam a vida do indíviduo e padroniza diferentes realidades de vida em uma só, que não compactua com a realidade atual. E é por isso que o conceito do o “homem de verdade” não é funcional nos dias atuais, e em boa parte dos casos, significa com o rapaz “se ferrando” psicologicamente e socialmente, no final das contas.

Os motivos são diversos. Para começar, do meu ponto de vista, o modo de vida moderno e as redes sociais impactam absurdamente as relações interpessoais. Coisas mudaram pra melhor, e ao meu ver, algumas pioraram.
1 — Antes, as relações humanas tinham um aspecto mais humano, direto. Elas se alteraram com o passar do tempo por alguns fatores principais: o avanço das redes sociais tendo influência cada vez maior na vida das pessoas, principalmente dos jovens, expansão do neoliberalismo e a importação de uma cultura cosmopolita (gradativamente apaga as culturas nativas e locais).
Esses fatores transformaram as pessoas em meras “mercadorias”, e as relações interpessoais, pelo menos em grande parte, passaram a se tornar mais baseadas na obsessão exagerada com o corpo e aparência (isso não quer dizer, evidentemente, que não se deve fazer atividades físicas, e quem é bonito não deva ser valorizado, claro), em detrimento de outras qualidades, no materialismo e no ‘interesse’ excessivo, na imagem, na mídia, e afins. Perdendo um pouco do lado espiritualista, mental, humano, unitário, e até romântico.
2 — Esse tipo de transformação afasta as pessoas de uma mentalidade mais ligada ao mental e espiritual, e as aproxima únicamente do material. Com isso, cria certos “padrões de vida e de imagem” nos quais quem não se encaixa, pode sofrer humilhações e até experiências traumáticas.
Um exemplo disso, é o que alguns meninos gordinhos/gordos podem sofrer ao longo da vida. Outro exemplo, é os traumas que um menino negro pode ter que passar durante sua história, por muitas meninas e meninos. Não estou igualando ambos, pra ficar bem claro. Mas creio que ninguém dava passar por humilhações, bullying ou algo do tipo como forma de encorajamento.
As redes sociais, junto as novas ideologias materialistas impostas em sociedade, vendem de forma cada vez mais excessiva os padrões, o que impulsiona o sentimento de “comparação”, agravando ainda mais essas problemáticas.
Entretanto, no caso da comparação masculina, é estimulado a ação de deixar pra baixo o indíviduo mais frágil, em vez de tentar animá-lo. A masculinidade nesse caso, funcionaria como pirâmide, e muita das vezes, os que estão nas partes mais acima, não conseguem fazer outra coisa se não humilhar quem está embaixo, ao em vez de dar conselhos positivos.
Em alguns casos, essa prática de humilhar outro rapaz mais frágil, é até feita para chamar a atenção de outras garotas, quase como forma de marcar território. Pra quem acha que os homens são tão unidos, isso está um pouco longe de ser realidade. Novamente, isso não se discute, pois esses homens tem pouco interesse em se desenvolver, do ponto de vista do caráter. Apenas recentemente vêm se falando sobre “desenvolvmento pessoal”.
Quando esses traumas ou eventos problemáticos são cometidos por garotas, é notório que há pouco interesse das mesmas de discutir sobre isso e de como podem se tornar melhores pessoas, pois vejo que muitas se instrumentalizam do “feminismo” pra tentar blindar quaisquer críticas (desde que pertinentes e construtivas) quanto ao seu caráter, atitudes, e etc. Acaba por se tornar um verdadeiro escudo comportamental. Muitas atitudes erradas de muitas meninas são normatizadas, inclusive por homens, até quando falamos de casos até mais extremos, de racismo, ou de mulheres membras de exércitos conhecidamente genocidas (alguns dos que vão ler esse artigo vão saber do que estou falando). Várias normatizam modos ruins de tratar os outros, grosseria, como uma forma de “empoderamento”, coisas que são bem diferentes.
3 — A criação dos pais e mães também não trabalha essas problemáticas nos filhos, e muitas vezes não investem na auto-estima dos mesmos, deixando-os abandonados e largados em algum canto, pois creem que criar alguém é só “botar comida no bucho” da criança ou do jovem, e foda-se o resto, além de que ignoram o sofrimento do indíviduo e ainda descarregam toda a culpa nele. Isso prejudica a socialização e impacta no seu comportamento.
4 — O conceito do “homem de verdade” basicamente os ensina a não trabalhar essas questões pouco a pouco com o tempo, e tentar abraçar uma personalidade supostamente durona, viril, para tentar acatar a “papéis” que ele nem sabe se terá condições de cumprir. Isso acaba gerando conflitos internos de personalidade, pois o indíviduo acaba se virando contra o que realmente sente, em que ele passa a ter um sentimento de necessidade, incentivado por outros, de tentar alcançar patamares que muita das vezes, ele ainda não tem chance de alcançar.
Ou então, por outros fatores da vida pessoal que estejam remoendo, como algo profissional, financeiro, etc, impactando na tomada de decisão do indíviduo, e até nas consequências quanto a própria vida pessoal, ainda mais na era moderna, tão corrida, com cada vez mais trabalho, problemas, e menos oportunidades.
Isso, por conseguinte, gera angústia e ansiedade. Mas o conceito do “homem de verdade” pede pra que você ignore tudo isso, e simplesmente tente abraçar um papel que não é o seu, naquele momento. Como o indíviduo pode exercer uma função em prol dos outros se nem ele está bem consigo mesmo, mentalmente e emocionalmente? Um chefe de família vai conseguir dar todo o alicerce necessário pra uma família? Um guerreiro vai ter o total rendimento que precisa pra defender o que lhe é importante?
Todo mundo quer que o palhaço lhes façam darem risadas, mas ninguém questiona, quem faz o palhaço rir?
5 — O fato acima também pode ser aplicado para aqueles que tiveram experiências traumáticas na família, criação abusiva, incluindo abusos sexuais ou físicos, por parte do pai ou até da mãe, que podem acabar impactando na socialização futura do rapaz. O conceito e tudo o que ele carrega junto além de não encorajar o ato da pessoa tentar lidar com esse passado e acontecimentos traumáticos, ou ruins, a fim de encontrar o seu próprio caminho e personalidade, ainda pode ser humilhado ou massacrado por outros que utilizam desses indíviduos como “bode expiatório” pra tentar esconder as fraqueza que também lhes atingem, e vender uma suposta superioridade moral e social. Esse processo é feito por muitos homens.
6 — Outros parâmetros também podem ser discutidos, como o socioeconômico. Tendo o Brasil, como exemplo, os direitos trabalhistas têm diminuído, ofertas de emprego e oportunidades profissionais, sobretudo para os mais jovens, são cada vez mais escassas, formas de obter renda são cada vez menores, ao passo de que o custo de vida aumentou em todos os setores. Essas condições fizeram com que formar uma família, nos dias atuais, fosse uma tarefa cada vez mais difícil. Logo, é preciso estar psicologicamente e socialmente preparado para tal. Não dá para o indíviduo abraçar uma realidade que ele não vai conseguir manter.
7 — As transformações citadas acima, ao passo de que mudaram as relações interpessoais, também influenciaram o matrimônio. Quem sou eu pra falar, mas pelo que posso perceber, a vida no casamento tem se tornado cada vez mais fragilizada, com menos espaço para diálogo, onde há tentativas de resolução na base da violência, ou um interesse desmedido em tentar tomar as posses ou patrimônio do parceiro, sem uma maior cumplicidade e respeito, visto que a sociedade atual é baseada no materialismo excessivo, e no dinheiro, imagem e prestígio como base única de tudo. Esses fatores representam um medo da possível convivência em meio ao casamento, principalmente a médio e longo prazo.
8 — Aliado a isso, as mudanças que ocorreram com a explosão das redes sociais e dos novos parâmetros-base da sociedade (materialismo, imagem, mídia, prestígio) produzem um novo mundo. É um mundo com menos espaço para o altruísmo, amor, romantismo, amizade, senso de compromisso, sendo vísivel uma falta de união entre as pessoas e laços de boa convivência, podendo ser mais frequente as traições, falsidades, humilhações e afins.
Nesse sentido, essa sociedade que gera incertezas quanto ao que pode te trazer de retorno, cria um receio do indíviduo de se doar (em todos os sentidos) pelos outros, valorizar o matrimônio e afins. Há casos, por exemplo, de que o rapaz sofre um relacionamento abusivo, ele termina e ainda pode ter a perda de tudo que possuiu ou construiu, de forma injusta.
O homem, historicamente, sempre se viu útil enquanto possuidor de função social (como era o papel do “homem protetor” de outrora), e recebendo apoio da família, dos amigos, da sociedade, e etc, o que não ocorre nos tempos atuais, dependendo do tipo de indíviduo analisado. Vale a pena se doar tanto por uma sociedade, do ponto de vista financeiro, psicológico e social, sendo que você pode ganhar nada ou pouco, como retorno, sem certeza de nada? Pra uns sim, pra outros não. Mas o conceito do “homem de verdade” ignora essas características, e força o homem a atender esses requisitos.

Levando em consideração o que foi dito acima quanto ao ato de ignorar e não cuidar dos possíveis traumas, agora falarei dos efeitos que a negligência quanto ao tratamento de traumas e questões emocionais em relação aos homens, podem causar.
No ponto 5 da parte em que cito as razões acima, pode-se dizer que aquelas práticas impactam no tratamento que o indíviduo dará para outras pessoas. Despejar humilhação e ódio em cima de alguma pessoa, sem ela possuir as válvulas de escape necessárias e os meios para tratar e lidar com esses problemas, pode fazer com que ela jogue isso em outra pessoa, fazendo com que pessoas que até nunca fizeram mal pra ninguém possam ser atingidas em todo o processo. É um ciclo que não mudará enquanto as pessoas reverem o modo como qual tratam as outras, e sobretudo, honestamente, a forma como diversas garotas tratam os outros, incluindo rapazes, e quanto a isso, cito os exemplos do ponto 2 da seção das razões, e não menos importante, a maneira na qual homens tratam os outros.
Esses comportamentos de não discutir questões emocionais e psicológica masculinas, e encorajar o “massacre” psicológico de outros homens por ser conveniente a alguém (por ex quando mesmo estiver abordando traumas do passado ou coisas do tipo), como o que foi apontado no final do ponto 5 anteriormente, faz com que possa ser propagado formas negativas de atitudes e comportamentos, de cima para baixo, quase que como uma pirâmide. Isso influencia nas relações interpessoais com pessoa da família, do trabalho, e até em relacionamentos.

Para finalizar a publicação, gostaria de fazer algumas reflexões acerca da essência da masculinidade. Ela tem sido intrinsecamente ligada não a fatores indicadores de uma boa pessoa: humildade, altruísmo, honra, coragem, bondade e etc, mas sim, quanto à sua vida sexual. Tem mais valor aquele que possui mais barganha e/ou consequentemente tem mais relações sexuais. A questão sexual vira o centro da masculinidade, e não o debate sobre caráter ou atitudes, visando atender cada vez mais as demandas dessa essência.
Em partes, os atores por trás do conceito do “homem de verdade” também impõem isso.
Acredito que, com o passar do tempo e dos anos, acompanhado das mudanças dos valores sociais, desse modo, a mulher, para o sexo casual, vira o grande motor da satisfação dessa “nova essência”, e isso pode desenvolver posturas obssessivas de alguns homens, inclusive contra mulheres, como assédio e abuso, por exemplo, que obviamente, jamais devem ser justificadas. Deixando claro, que não estou falando da atração de homens para com mulheres, estou falando de obsessão, o que é diferente. Há de se diferenciar atração de obsessão.
Isso também pode ser visto na postura dos estereótipos de homens “esquerdomachos”. Há a criação de personalidades falsamente boas, geralmente com o pretexto de tentar impressionar garotas, porém, com o passar do tempo, se revela a verdadeira identidade dos mesmos. O que comprova que essas contrariedades só se resolveram quanto o debate for em torno do tratamento em relação as pessoas de uma maneira geral e outros homens. Ela seria a raíz de todo o problema. Todavia, isso é negligenciado, visto que a busca não é a melhoria pessoal, mas sim, o atendimento dessa “nova essência” mediante a construção de uma imagem “positiva”, visando agradar meninas, mesmo que ela não seja real. E ela continuará não sendo real, enquanto não for discutida a raíz desse cenário.
Se você não corta o mal pela raíz, como vai resolver o resto? Você precisa primeiro melhorar como pessoa quanto ao seu caráter, o modo de tratamento em relação aos outros, para depois pensar no resto. Caso contrário, ele fatalmente tratará as parceiras, depois de um certo período de tempo, da mesma maneira como ele trata os outros companheiros do sexo masculino.

É isso. Confesso que não sei se esqueci de algum ponto, mas espero que tenham gostado da leitura. Qualquer coisa, estou aberto a debates, podem pontuar e discordar nos comentários, sem problemas.
Abraços!


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