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SOBRE A MORTE E O MORRER. Nessas duas semanas no HR, vi mais… | by Lara Victória | Oct, 2021

Lara Victória

Nessas duas semanas no HR, vi mais mortes do que nos meus 22 anos anos de vida antes disso. Vi gente morrer ali todos os dias, todos os dias mesmo. Todo mundo sabe que a morte é algo natural, que, de fato, acontece todos os dias, no mundo inteiro. Mas estar ali, tão perto dela, é algo completamente diferente. É difícil e machuca de formas que ainda estou aprendendo a reconhecer.

Ontem, no final de 12 longas horas de plantão, uma paciente teve uma PCR. Foi a segunda vez que eu entrei numa RCP pra fazer a massagem. A paciente era uma mulher mais velha, de talvez 60 anos ou mais. Hoje, mais de 24 horas depois disso, eu ainda consigo lembrar com exatidão do rosto dela. Do sangue que saía pela sua boca cada vez eu colocava o peso do meu corpo sobre o peito dela. Daqueles olhos abertos, olhando pra um lugar muito distante dali. É por causa dela que tô aqui escrevendo hoje. Por causa daquela mulher, cujo nome eu não sei. Da mulher que virou mais uma entre tantas pessoas que morrem ali. Mais um corpo, mais uma DO, mais um saco cinza. Ironia do destino, numa maca depois da dela, tinha outro morto, já dentro do seu próprio saco cinza.

Já pensei comigo mesma inúmeras vezes que muitas pessoas vão até ali só pra morrer. Não vi uma única pessoa que tenha sofrido uma PCR lá e que tenha sobrevivido pra contar história. Como eu já disse, ver tudo isso de perto é muito difícil. Admito que, na medida do possível, eu me acostumei a ver tantas mortes. A maior parte delas passa por mim sem que eu pense muito sobre elas. Já outras, conseguem atravessar a barreira que minha mente construiu pra se proteger e chegam até mim como tapa. Um tapa que machuca, que deixa uma marca.

A verdade é que não são só aqueles desconhecidos que morrem ali, pois uma parte de mim também morre todo dia. E isso acontece aos poucos; uns dias mais, outros menos, mas acontece. E, como eu não posso simplesmente largar tudo e nunca mais pisar naquele lugar (que é o que eu gostaria de fazer), decidi colocar meu luto nesse texto. Meu luto por todos aqueles que têm o azar de morrer ali, por todas aquelas vidas e suas histórias e seus nomes. Luto por mim, que me vejo dia após dia mais cansada, mais triste, mais vazia. Ainda me restam duas semanas inteiras no HR e só o universo sabe quantas outras mortes eu testemunharei e o quanto de mim também vai morrer ali. Mas, se for verdade que nada se perde, tudo se transforma, talvez essas partes mortas de mim se transformem em adubo pra algo novo, pra algo melhor. Assim eu espero.


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